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No mês de junho, ocorreu na Associação Rio Grandense de Imprensa (ARI), o Fórum de Debates "As Perguntas Que Não Calam - Tendências e Perspectivas da Imprensa Brasileira". A equipe da AJor esteve presente em dois painéis que integraram A Semana Comemorativa 200 anos de Imprensa no Brasil.
O presidente da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, de São Paulo, jornalista Paulo Markum foi o primeiro palestrante do Fórum de Debates e abordou o tema "Mídia e Poder: Relações Perigosas". O jornalista falou sobre o início da imprensa no Brasil, as dificuldades, os riscos da profissão, a censura e as relações entre imprensa e política.
Markum ressaltou que a imprensa nacional começou tarde, apenas com a chegada dos portugueses, em 1808, sendo que, até então, era proibida toda e qualquer atividade de imprensa incluindo jornais e livros.
De acordo com o jornalista, a imprensa brasileira nasceu em 1808, com duas pernas muito estranhas: uma em Londres, quando o exilado, Hipólito José da Costa lançou o Correio Brasiliense, primeiro jornal brasileiro, ainda que fora do Brasil, com caráter mais doutrinário do que informativo, e a outra no Rio de Janeiro, meses depois, em 13 de maio, com a Gazeta do Rio de Janeiro, órgão oficial do governo português, "que tinha quatro páginas, era semanal e nenhuma informação relevante".
A imprensa passou por várias fases, contou o palestrante, mas para ele o período mais sombrio foi durante o Estado Novo, quando os jornais estavam sob intervenção. Ao relembrar episódios, ressaltou a contribuição positiva da imprensa para pôr fim à ditadura e mencionou a importância do jornalista e político Carlos Lacerda, no jornal Correio da Manhã, que fazia oposição ao governo de Getúlio Vargas e que ajudou a demolir o final da ditadura.
Ao falar da relação da mídia com o poder, ressaltou os riscos da profissão e comentou que o jornalista paga com a vida o poder de denunciar. Lembrou do caso Tim Lopes, jornalista da TV Globo, assassinado por Elias Maluco do Comando Vermelho, e dos jornalistas do jornal "O Dia", seqüestrados e torturados por milícias da favela do Batan, no Rio de Janeiro. "Como jornalista a gente não pode se furtar de correr os riscos que a profissão determina, ou seja, se você está cobrindo uma passeata e começar um tiroteio, você não vai se esconder debaixo da cama ou sair correndo dali". Paulo acredita que não existe jornalismo sem risco, e que os jornalistas do jornal "O Dia" e Tim Lopes sabiam do perigo que estavam correndo. "Eu acho que não existe jornalismo sem risco. Mas eu não tenho a mínima vocação para herói e não tenho nenhum interesse em virar herói ou ganhar uma placa informando: "Ilha de edição, Paulo Markum".
Convergência na Comunicação
"Agenda positiva. Sobre o que convergem profissionais, empresas de comunicação, anunciantes e poder público"? Foi o tema do painel que contou com a participação do editor da revista Caros Amigos, Mylton Severiano e do diretor de redação da revista Época Negócios, Nelson Blecher.
Os posicionamentos dos painelistas foram controversos em boa parte dos pontos abordados e, principalmente, no que diz respeito à autonomia da imprensa. O diretor de redação da Época Negócios, acredita que não há mais censura aos veículos midiáticos. E ressalta: "Não podemos dizer que não temos democracia no Brasil. A imprensa tem liberdade, temos eleições diretas". Já Miltainho, como é conhecido o editor da revista caros Amigos, tem uma idéia bem distinta, e comenta que "Essa questão de liberdade é muito relativa. Para começar o voto é obrigatório. Que democracia é essa? Temos vários sintomas de que não vivemos uma democracia plena ainda". E complementa opinando que "A censura acabou, mas ficou uma boa dose de auto-censura". Para ele, só haverá convergência de fato para os profissionais do jornalismo, anunciantes e poder público, quando atingirmos uma situação de plena democracia, e não relativa".
O diretor de redação da revista Época Negócios, rebateu novamente afirmando: "Discordo, pois mesmo em uma ditadura também haveria convergência". Para ele um dos graves problemas da comunicação, em relação à convergência, é como o leitor vem sendo visto. E destaca: "Nos últimos anos erroneamente passaram a chamar o cidadão de cliente, considerando todo o leitor um consumidor". E essa leitura, segundo ele, acaba por ditar o próprio posicionamento das empresas de comunicação. E destaca: "Um veículo de comunicação não pode ser visto como uma pastelaria, uma fábrica de salsicha, ainda que tenha de fabricar boa salsicha". E complementa: "A burocracia entrou nas redações e transformou os jornalistas, não digo em burocratas, mas administradores, executivos".
Para Miltainho, na mídia gorda, sem dúvidas, há convergência. "Se pegas uma grande revista há diversas páginas seguidas de anúncios e está tudo uma beleza, maravilhoso. Os profissionais recebendo seu dinheirinho em dia, os patrões vendendo revista", conta ele. Porém, essa realidade não é igual para a mídia alternativa, comenta o editor. Independente, como prefere classificar a Caros Amigos, a relação com anunciantes é bem diferente que em revistas da grande mídia. "A gente não quer ficar sem anúncios, queremos nos inserir no sistema e contribuir para que haja mais democracia", comenta o editor. "Aliás, o fato de a revista Caros Amigos não receber anúncios comuns como outras revistas recebem, inclusive a Piauí, é outro sintoma de falta de democracia", ressalta.
Verbas reduzidas e seus efeitos
O diretor de redação da Época Negócios admite que na grande mídia, onde estão os maiores anunciantes, as verbas de cobertura foram reduzidas, e começaram a se copiar as notícias da televisão. Além disso, conta que "para se manter as tiragens em determinados patamares é necessário ser mais popular e menos analítico ou elitista, implicando em menor ousadia editorial". Outro ponto importante que influencia essa igualdade de conteúdo, segundo Blecher, é o fator tecnológico. "Hoje com as novas tecnologias o que temos pode-se chamar de um jornalismo de manada. Sai uma notícia em algum lugar e depois todos os outros veículos vão copiando essa notícia", comenta. Também destaca a influência crescente das chamadas redes sociais por meio da internet. "Elas funcionam nos dias de hoje como uma espécie de mediador, um esclarecedor, alguém que explica a notícia com início, meio e fim". Para o diretor, "o veículo ou uma empresa não podem mais achar que tem a opinião definitiva". E acredita que inclusive as grandes empresas estão monitorando a internet e criando seus próprios blogs. Assim, "Se a imprensa já foi chamada de 4º poder, essas comunidades muito em breve poderão ser chamadas de 5º poder".
Por tais motivos, Blecher considera a relação de convergência entre jornalistas, empresas de jornalismo, anunciante e poder público, um processo muito distinto de décadas passadas e que ainda está muito longe de ter um modelo fixo. Para ele "A grande questão do futuro é como as pessoas irão absorver informação. Com certeza será diferente da forma que nós, 'gutemberguianos' absorvemos. É um mundo de papel eletrônico, digitalizado, a tecnologia irá transformar o poder dos grandes veículos provavelmente".
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