Luis Marcos Sander, Asne Seierstad e Moacyr Scliar. (Foto: Márcia Dihl)
Na tarde do dia 30 de outubro, às 14h30, ocorreu no Salão de Atos da UFRGS a coletiva de imprensa com a jornalista e escritora norueguesa Asne Seierstad que está participando da Feira do Livro para divulgar a sua mais recente publicação: O Livreiro de Cabul, que relata a experiência vivida por ela e a convivência no seio de uma família afegã ao longo de três meses. O livro é considerado um best-seller e foi vendido em mais de 30 países.
Dividindo a mesa com a escritora estava o tradutor, Luis Marcos Sander e o escritor Moacyr Scliar, conferencista do projeto Fronteiras do Pensamento. Seierstad se mostrou à vontade para responder as perguntas feitas pelos cerca de 30 jornalistas presentes. Entre as questões abordadas não podia ficar de fora a polêmica entre a escritora e o livreiro de Cabul, personagem que dá título ao livro.
Segundo a escritora, o conflito com Shah Muhammad Rais - nome verdadeiro do livreiro de Cabul - dura há quatro anos. Ele não teria gostado do enfoque dado pela jornalista e as observações feitas sobre a família: "Ele pensou que eu narraria um conto de fadas. Talvez eu devesse ter entendido a expectativa dele, de ser retratado como um 'anjo salvador' do Afeganistão, porém eu não iria mudar o que vi e ouvi enquanto estive dentro de sua casa". Seierstad comentou que não teria como fazer de Rais um herói, e que provavelmente era assim que o livreiro gostaria de ser apresentado. Para a escritora outro fator é que ele pretendia ser um herói para o mundo Ocidental, conversando com os jornalistas e os convidando para irem à sua casa e falando sobre a democracia no Afeganistão, mas por outro lado ele gostaria de ser um herói também no seu país, ou seja, aderir e seguir os valores tradicionais da região, controlar a sua casa, não permitir que as suas mulheres saíssem. Não é possível ser um herói nesses dois mundos ao mesmo tempo.
Em resposta ao livro, Rais escreveu "Eu Sou o Livreiro de Cabul". Seierstad afirmou que o livreiro antecipou o conteúdo que abordaria no encontro que tiveram na casa dos pais dela. "Ele tem uma abordagem muito original no livro. Num dos capítulos, ele está sentado no hall de um hotel, na cidade de Karashi, e descreve quando dois Throlls - seres da mitologia norueguesa que vivem em montanhas e possuem características más e boas - entram pela janela com a missão de descobrir a verdade. Na ocasião, ele me disse que provaria que eu não era culpada, mas que quando fui ao Afeganistão levei em minha mochila alguns Throlls maus, que me fizeram escrever daquela maneira", relatou.
O papel da mídia
"Estamos anos luz na frente de situações como as vividas em Cabul. Isso se deve, em grande parte, a coragem da mídia. Sobretudo pelos 20 anos de ditadura que passamos. Uma vez fui impedido de comentar sobre um livro que tratava de índios, porque a censura proibia", comentou Scliar acrescentando que o livro de Seierstad ensina muitas coisas e que não se deve tolerar certas atitudes em nome da cultura. Scliar então passou a falar como médico e citou como exemplo a clitorectomia - mutilação do clitóris - que é feita, em algumas regiões da África, para impedir a mulher de sentir prazer. No Afeganistão as mulheres não podem ser tocadas pelos médicos na hora da consulta e os exames são realizados através de um orifício feito em um lençol. "É como colocar solda cáustica no leite", ironizou Scliar provocando risos na platéia.
Quando o assunto chegou à diferença entre Oriente e Ocidente, a escritora comentou que o estigma é um problema desses "dois mundos". E que a mídia, em certo ponto, reforça o estereótipo de pessoas com raiva ou explodindo ônibus com turistas. Por outro lado, o Oriente publica notícias relacionadas a drogas e desintegração das famílias no Ocidente. Segundo a escritora, a mídia veicula esse tipo de clichê e por essa razão considera os livros um meio para derrubar essa visão, mostrando outros pontos de vista.
A aventura intelectual
de Seierstad e Scliar
Por Cássio Machado | Quarta-feira, 31 de outubro de 2007, às 16h06
Scliar media debate com a escritora Asne Seierstad. (Foto: Cássio Machado )
Na noite do dia 30, terça-feira, às 19 horas, no Salão de atos da UFRGS, foi concedida uma palestra focada na jornalista e escritora norueguesa Asne Seierstad, autora de "O Livreiro de Cabul", e no escritor e médico Moacyr Scliar.
O encontro denominado "Aventura Intelectual", contava com uma platéia densa, iniciado com a apresentação da escritora, que relatou sobre a sua carreira, sobre a inserção na vida jornalística, além de histórias curiosas, ocorridas em suas viagens de peregrinação. Seisterd comentou que encontrou os leitores prediletos de sua obra no Brasil, na sua primeira visita feita ano passado.
"Fui conquistada pela realidade", afirma Seierstad, ao dizer que largou da carreira televisiva justamente porque neste meio, os fatos devem ser retratados de forma rápida, tratando as pessoas de maneira desumana e perdendo muitos detalhes importantes. Descreve que tentam colocar as pessoas em "caixinhas", para que se possa classificá-las e que em um livro, se tem a liberdade de mostrar vários ângulos de uma realidade.
A escritora também faz comentários sobre a sua nova obra, que relata a situação de crianças na guerra, denominando-os de "os filhos da guerra". Seiersted fala do caso de um menino de 13 anos que conheceu, nascido no início da guerra da Chechênia e, de como essas crianças estão sendo violentadas com toda a agressão que uma guerra pode oferecer.
Na palestra, questionaram a respeito do choque cultural e Moacyr Scliar entra falando da importância do livro de Seierstad: "este livro é importante para nos fazer pensar: até que ponto, ao analisarmos criticamente uma cultura diferente, como a opressão feminina no Afeganistão, estamos fazendo isso em nome de um preconceito cultural ou por nossas condições humanas".
A sua pesquisa sobre a história dos imigrantes judeus no Brasil, especificamente no RS, também inclui a questão do choque cultural, no qual os judeus eram um dos alvos do nazismo na Europa, obrigando-os a emigrarem de sua terra natal, entrando assim, em contato com uma cultura diferente na América. Muitas vezes, relatando tais momentos sobre a vinda dos judeus, arrancou gargalhadas da platéia, que apreciavam as suas palavras com muito gosto.
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